A PERDA DA SUBJETIVIDADE DA MULHER FRENTE A RELAÇÕES ABUSIVAS: ENTRE SINTOMAS E HEMATOMAS DO AMOR
Resumo
O presente artigo tem como objetivo analisar de que maneira a mulher anula sua subjetividade em relações abusivas, articulando perspectivas psicanalíticas, socioculturais e de gênero, a partir do verso de Paulo Leminski — “Do amor conheço os sintomas e os hematomas”, que evidencia o paradoxo entre afeto e dor e denuncia como o amor, atravessado por estruturas patriarcais, pode se transformar em instrumento de dominação. Justifica-se a relevância do estudo diante da naturalização da violência simbólica e emocional nas relações amorosas, que mantém a mulher em posições de subordinação. Para compreender este fenômeno, são mobilizados autores como Freud, Lacan, Saffioti, Beauvoir, Butler e Kehl, que permitem observar como mecanismos psíquicos, a exemplo da compulsão à repetição, do masoquismo e da devastação, articulam-se à construção sociocultural do amor romântico, confinando a mulher em dinâmicas de controle, dependência afetiva, econômica e emocional, resultando no apagamento do eu. A análise evidencia que a perda da subjetividade ocorre quando a mulher abdica de seus direitos de desejar, pensar e existir para além do outro, sendo reduzida à objetificação. Os resultados apontam que a idealização amorosa e a lógica patriarcal sustentam práticas de dominação que inviabilizam a autonomização feminina. Conclui-se, portanto, que o resgate da subjetividade feminina constitui um processo multidimensional, configurando-se como ato político, clínico e existencial, imprescindível para a ruptura com ciclos abusivos e para a reconstrução de uma existência baseada na autonomia, no reconhecimento de si e na dignidade.
Palavras-chave
amor; violência; subjetividade; gênero; psicanálise; relações abusivas.
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Sem títuloReferências
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